segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ψ A maior lição da psicanálise é esta: qualquer desejo implica perdas. (Calligaris)

*Contardo Calligaris:
1. Você pode escolher entre ficar em casa ou pegar a estrada e, sem dúvida, faz e fará um pouco dos dois. Mas, quando estiver em casa, tente não sonhar com a estrada e, quando estiver na estrada, tente não lamentar o calor do lar. Vivemos de sonhos e de nostalgias: é necessário cuidar para que essa alternância não nos mantenha constantemente afastados do momento presente.

  2. Quando alguém pedir esmola ou ajuda, dê (na medida de seu possível) o que está sendo pedido. Não tente moldar o desejo de quem pede, oferecendo pão e leite em vez do trocado. A humanidade dos mais desprovidos se refugia e resiste justamente na capacidade de continuar desejando o supérfluo.

  3. Todos os pedidos podem ser recusados, mas devem ser, ao menos, reconhecidos. Portanto é proibido recusar sem falar.

  4. Trate como íntimo só quem poderia sem riscos lhe devolver a mesma cordialidade.

  5. Caso você pretenda mudar o mundo, lembre-se de que, provavelmente, você não está à altura do mundo mudado segundo seu desejo. Se pretende transformar seu parceiro ou sua parceira, lembre-se de que você, provavelmente, não está à altura do parceiro ou parceira assim transformados. Quem quer mudar as coisas facilmente esquece de contar-se entre os itens a serem mudados.

  6. Qual é a melhor viagem: visitar as capitais européias num “tour” de 15 dias ou passar duas semanas numa cidade só e conhecê-la um pouco? É mais interessante manter um casamento complicado do que multiplicar as ou os amantes. O mesmo vale para os amigos e relações em geral.

  7. Uma vez por semana, durante uma hora, sente-se numa esquina de sua cidade e contemple os passantes. Tente imaginar a variedade das vidas, a dignidade de todas. Se você tem filhos, faça o exercício duas vezes por semana: será de grande ajuda para aceitar que a vida deles vale a pena, mesmo se não corresponde em nada aos seus sonhos.

  8. Considere como verdade absoluta que é possível ter uma vida boa e justa sem acreditar numa verdade absoluta.

*publicado originalmente no suplemento “Mais!”, da Folha de S.Paulo, de 13/10/2002.

sábado, 22 de setembro de 2012

(...)



"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem." Pablo Neruda

"Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
- tem que ter reflexo."




*Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda:

- Escrever melhora a angústia de viver?
- Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.

- Quem é Deus?
- Todos algumas vezes. Nada sempre.

- Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível? 
 - Político, poético, físico.

- Como é uma mulher bonita para você?
- Feita de muitas mulheres.

- Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento.
- Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

- Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?
- Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema:
Se tivesse que nascer mil vezes
Ali quero nascer.
Se tivesse que morrer mil vezes
Ali quero morrer…

- Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
- Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros no Norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

- Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?
- Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

- Diga alguma coisa que me surpreenda.
- 748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números.)

- Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?
- Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, Claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o Defunto, de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

- Que acha da literatura engajada?
- Toda literatura é engajada.

- Qual de seus livros você mais gosta?
- O próximo.

- A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o ‘vulcão da América Latina’?
- Não sabia disto, talvez eles não conheçam os vulcões.

- Qual é o seu poema mais recente?
- Fim do mundo. Trata do século XX.

- Como se processa em você a criação?
- Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

- A crítica constrói?
- Para os outros, não para o criador.

- Você já fez algum poema de encomenda?  Se o fez faça um agora, mesmo que seja bem curto.
- Muitos. São os melhores. Este é um poema.

- O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?
- Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

- O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
- Depende da hora do dia.

- O que é o amor? Qualquer tipo de amor?
- A melhor definição seria: o amor é o amor.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.

- Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?
- Um ano, mas dependo de meus trabalhos.

 (…) LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.185-6. Clarice Lispector; Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda
(Fatima Vieira)

Ψ " Se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja, molhe-se." Calligaris



 
Ψ “Na minha literatura, como na minha vida, amar é, sobretudo, um ato de coragem que só é possível para quem viaja de mala de mão.”

A afirmação é do Psicanalista *Contardo Calligaris que numa entrevista  fala sobre amor, Psicanálise, Brasil e dá alguns conselhos a novos terapeutas.

- Que buscas, desejos, dificuldades mais se repetem naqueles que procuram um psicanalista?
- Calligaris: 1) amor e desejo; 2) sensação de não conseguir realizar as coisas das quais a gente se sente capaz ou às quais se sente destinado, realizações que são um pouco mais do que a dita “realização profissional."
 Agora, essa é uma distinção temática. No fundo, do ponto de vista da dinâmica interna, o que mais aparece é a dificuldade em desejar e em agir à altura do desejo da gente.

- Quais as principais questões que lhe desafiam nas pessoas que chegam ao seu consultório?
- Calligaris: Sem dúvida, quando ela ocorre, a pane do desejo, um “não querer nada” e “não gostar de nada”, que pode ser menos espetacular que uma depressão, mas é, a meu ver, mais grave.

- De que maneira as características culturais desse tempo modificaram a psicanálise? Que fenômenos emergentes nessa área poderia destacar?
- Calligaris: Fora os detalhes práticos (pouco relevantes), um fenômeno, sim: a extrema e progressiva sanitização do sexo.

- De que maneira a violência social no Brasil interpela a psicanálise, ela teria algo a dizer?
- Calligaris: Sim, sem dúvida. Citar o quê? Violência e Psicanálise, de Jurandir Freire Costa, ou o meu Hello, Brasil!, visto que seremos os palestrantes deste encontro. Pessoalmente, devo ter participado de cinco ou seis seminários “decisivos” sobre o tema, nos quais, claro, não se decidiu nada…

- Quais os três conselhos que você daria a um (a) novo (a) terapeuta?

- Calligaris: 1) se preocupar sempre mais com seus pacientes do que com seus colegas; 2) se preocupar sempre mais com seus pacientes do que com a doutrina de sua disciplina; 3) voltar a se analisar periodicamente;
 por três razões: para se lembrar que ele pode pouco (e conviver melhor com essa frustrante constatação), para não confundir seu sintoma e sua neurose com a regra e para descobrir e inventar coisas novas sobre ele mesmo.

- Você tem uma voz ativa (oral e escrita) sobre a vida do país. Comente duas razões de esperança do Brasil atual e as duas principais preocupações que lhe afetam na atualidade do paÍs.
- Calligaris: Para alguém que chegou ao Brasil pela primeira vez em 1985, como é meu caso, o país mudou muito. E mudou para melhor, decididamente. Duas razões de celebrar: diminuição da diferença econômica e a sensação, nas trocas cotidianas, de uma maior inclusão social (o outro se tornou mais gente, por miserável que seja). Agora, toda mudança é aos trancos e barrancos - isso é a regra. 

- Preocupações? Nenhuma, fora a lista que qualquer torcida nacional poderia enumerar. Ou melhor, uma: que (durante um bom tempo) a encenação ostentatória da justiça substitua seu exercício efetivo.

- Que características tem o amor na sua literatura?

- Calligaris: Na minha literatura, como na minha vida, amar é sobretudo um ato de coragem que só é possível para quem viaja de mala de mão. Também, é uma aventura que não acontece sem um respeito pelo outro, que raramente conseguimos oferecer.

- Qual é seu grande sonho que gostaria de um dia realizar?
- Calligaris: Não tenho sonhos que não esteja tentando realizar já. Há mais algumas histórias que quero contar e com as quais gostaria de contribuir ao “livro interior” de meus contemporâneos. Claro, tenho um sonho que depende não de mim, mas de meu filho: quero ter netos.

"O diálogo que leva ao amor dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de se apresentar por nossas falhas, feridas e perdas."
"É melhor falar logo das coisas mais difíceis de serem ditas. Pois, quando são silenciadas, elas acabam se vingando, sempre."

"Não conseguimos realizar nossos desejos porque, frequentemente, não estamos dispostos a pagar o preço que esses desejos exigem de nós."
 
*Contardo Calligaris (1948, Milão, Itália) Psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Ensaísta.
 Radicado no Brasil, vive entre São Paulo e Nova York, onde já foi professor na Universidade de Berkeley e na New School. Autor de diversos livros, entre eles Crônicas do individualismo cotidiano (1996), A adolescência (2000) e Cartas a Um Jovem Terapeuta (2004);  
Também assina uma coluna no jornal Folha de S P, com a qual  vem desempenhando papel como formador de opinião a partir de reflexões sobre cinema, choque cultural, relações amorosas, política, violência e exclusão social.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

... primavera, enfim!



Ψ A Angústia como Sintoma Neurótico: Neurose Fóbica

- Ψ Na NEUROSE FÓBICA, manifesta-se uma tensão interna geral sob a forma de angústia constante, que flutua livremente, ou de disposição para a mesma.

- Na FOBIA, a angústia liga-se, especificamente, a uma situação especial, esta representando o conflito neurótico.

- Se o EGO avalia o perigo - "Este ato ou situação instintiva é capaz de acarretar a castração ou a perda do amor" - visa a "advertir" no mesmo sentido em que o EGO normal adverte de um perigo verdadeiro, o que se vê é completamente esta intenção na NEUROSE FÓBICA.

- O que visava a impedir um estado traumático na realidade o induz; situação esta que mencionamos quando falamos na estratificação tríplice da angústia, isto é, a angústia de advertência regride à angústia do pânico.

- Esta falha da função de advertência do EGO explica-se pelo fato de que o aumento da tensão interna (o estado de represamento) já criara disposição geral para a angústia: barril de pólvora em que o sinal de perigo atua como se fosse um fósforo.

- As pessoas tensas reagem às situações de perigo por forma diferente das pessoas normais. As pessoas tensas desenvolvem disposição latente para a explosão, disposição que, por influxo acrescido do temor consequente à percepção do perigo, as faz ficar paralisadas.


- Do mesmo modo que reagem a perigos reais com pânico, em lugar de sentir medo e reagir de acordo, as pessoas "nervosas" também reagem a perigos imaginários com pânico.

- Quase sempre certa disposição difusa para o desenvolvimento de uma angústia que tem a ´índole de neurose terá existido durante algum tempo. Alguma coisa ocorre que, inconscientemente, mobiliza o conflito patogênico básico. O Ego quer advertir, falha a advertência e produz o primeiro ataque de neurose fóbica.

- Daí em diante, a disposição para o desenvolvimento de angústia liga-se à situação específica, que produziu este primeiro ataque.

- A limitação e a especificação da situação temida pode descrever-se como sendo uma espécie de ligação secundária da ansiedade difusa primária ao conteúdo específico, momento este a que a disposição explosiva contínua da neurose fóbica está controlada, desde que não se acendam fósforos de alusão às situações específicas; mas se nestas se toca, manifesta-se a angústia e secundariamente, o Ego desenvolve medidas que tentam combatê-la.

- Na neurose fóbica o temor que motivou a defesa ainda está manifesto, é o tipo mais simples de neurose, de modo que as primeiras reações neuróticas das crianças tem, em regra, o caráter da neurose fóbica. Todas as demais neuroses elaboram de maneira mais extensa a angústia.

O DESLOCAMENTO DA NEUROSE FÓBICA - O que determina a escolha do conteúdo específico? Que situações ou pessoas se acredita sejam perigosas?

- Existem casos em que não há muito deslocamento; a angústia é sentida em situações nas quais uma pessoa desinibida experimentaria ou excitação sexual ou raiva. A inibição, às vezes, se manifesta em certo temor, o qual se desenvolve sempre que se toca no terreno inibido.

  - Na impotência e na frigidez há uma fobia do sexo, o indivíduo se amedronta diante de tentações sexuais e tenta evitá-las.

- Há fobias gerais da comida, os quais se terão ligado a conflitos inconscientes; ou através de associações históricas, ou pela sua significação simbólica - Noutras fobias, ainda simples, a situação que se teme não constitui tentação temida; é a ameaça que causa a tentação a temer-se; castração ou perda de amor.

- Há fobias de facas e tesouras, nas quais se implica que sequer a vista destes instrumentos desperta a ideia temida de castração possível (hostilidade reprimida).

- Nos casos de histeria em que as forças defensivas mais realizaram do que simples desenvolvimento de angústia e atitudes fóbicas ulteriores; ficou mais oculta a conexão entre a situação temida e o conflito instintivo original. Não são as situações sexuais que se temem, mas, as situações sexualizadas.

-  Em geral, a situação ou a pessoa que se teme possui significação especial para o paciente. Alguns impulsos rejeitados buscam oportunidade de satisfação, mas a reativação respectiva também mobiliza as angústias antigas; as repetições neuróticas consistem em falsas interpretações da realidade no sentido ou de tentações inconscientes; ou num sentido e noutro.

- EXEMPLOS de situações de ansiedade que representam tentações inconscientes: A ideia de ruas, nas AGORAFOBIAS, é concebida, inconscientemente, como oportunidades de aventuras sexuais.

  - Pensa-se na rua como um lugar que se poderia ser visto e capturado; estar só significa estar desprotegido do inimigo.

- Há muitos temores hipocondríacos que significam ou "posso ser castrado", ou "pode vir a verificar-se que eu já esteja castrado".

- FOBIAS de doenças (nosofobia) em pessoas que na infância o medo de castração se deslocou para a ideia de adoecer. "Estar doente" significa "estar com febre"; e as sensações do estado febril representam a temida excitação sexual infantil.

  - MEDO DE CAIR DE LOCAL ALTO E MORRER: Quase sempre significa punição de desejos homicidas.; mas a própria sensação da queda representa, simultaneamente, as sensações da excitação sexual, que bloqueada no seu curso natural, adquire caráter doloroso e atemorizador.

- CLAUSTROFOBIA: O medo de ser confinado em espaços apertados, ou o medo de ruas estreitas são as próprias sensações de angústia que se experimentam como constrição e aumentam com as sensações vegetativas dolorosas que substituem a excitação sexual bloqueada.

- O "MEDO DE FICAR DOIDO" - Este temor pode ser justificado. Não é exata a regra segundo a qual quem tem medo de enlouquecer não enlouquece. Há muitos esquizofrênicos incipientes que percebem o seu alienamento crescente.

- É frequente este não constituir juízo fundado, mas sim fobia (e mesmo como fobia, o medo tem base objetiva); o que o paciente sente, em seu medo de enlouquecer, é a interação dos seus desejos inconscientes (pricipalmente os impulsos instintivos - sexuais ou agressivos - que dentro dele atuam).

- Neste sentido, o medo de enlouquecer o medo de sua própria excitação. Pois a excitação temida da sexualidade infantil quase sempre se experimenta em conexão com a masturbação, é fácil que as crianças aceitem como substitutos da ideia de castração as advertências dos adultos no sentido de que "a masturbação fazem as pessoas ficarem malucas".

- Os temores de ser feio ou de estar sujo podem significar o mesmo que os temores de ser doente ou louco; a feiúra, a aparênciarepulsiva significam estar sexualmente excitado (ou estar enraivecido), ou ser castrado. Acontece às vezes certas fobias desta ordem constituem estados de transição para delírios.

FERENCZI cita outro exemplo de da simultaneidade de tentação e castigo nas NEUROSES DE DOMINGO: Há pessoas que nos domingos sofrem fconstantemente de angústia (ou depressão). Os domingos são, em geral dias em que, supostamente, mais do que os outros dias ocorrem atividades sexuais; mas são os dias em que as crianças estão mais sob supervisão dos pais.

-  Por força da REPRESSÃO é frequente as fobias terem conteúdo indefinido, nebuloso, que se compara pela falta de clareza, ao conteúdo dos sonhos.; é comum ver grande parte do trabalho analítico ocupada com a determinação precisa do que é que mete medo ao paciente. Às vezes parece que o conteúdo do temor foi claro e definido para depois se tornar no curso da neurose vago e impreciso.

- A vantagem que tem o deslocamento está em que a ideia ofensiva original não se torna consciente. Tem-se o caso analisado por FREUD do pequeno HANS que teme cavalos. Aquelas pessoas que ameaçam são odiadas, o menino deixa de ser ameaçado pelo pai para ser ameçado pelo cavalo mau, assim consegue evitar o ódio ao pai. Com o pai ele precisa conviver todos os dias, enquanto a ameaça do cavalo é fácil evitar ficando em casa.

- QUEM TENHA FICADO COM MEDO DE SAIR DE CASA PODE EVITAR ESTA SITUAÇÃO TEMIDA, MAS NINGUÉM CONSEGUE EVITAR O PRÓPRIO CORPO E AS SUAS SENSAÇÕES, acaba por produzir projeção vantajosa de certo perigo instintivo interno para um perigo perceptivo externo.

- Logo, nas FOBIAS a projeção desta ordem é a tentativa de fugir de certo impulso perigoso interno pelo evitar de uma contigência externa específica, que representa este impulso, é o tipo de deslocamento que com mais freqência se vê nas fobias.

- Sabe-se que o perigo original, tem sido também perigo externo, visto não ser a expressão instintiva que se teme, e sim, as suas consequências externas (castração, perda de amor).

- Embora, o indivíduo fuja de pais ameaçadores, o indivíduo fóbico foge, primordialmente dos seus próprios impulsos, porque o perigo externo da castração é determinado pelo seu comportamento.

BIBLIOGRAFIA:
FENICHEL, Otto - Teoria Psicanalítica das Neuroses. Livraria Atheneu, Rio de Janeiro/ S.Paulo, 1981.
(Fatima Vieira - Psicóloga)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ψ "Então, para que é que estou maluco"?



Ψ LUCROS SECUNDÁRIOS DAS DOENÇAS
- Enquanto se está estabelecendo uma neurose é, via de regra, muito incômoda.
- O EGO, tenta então, fazer da necessidade uma 'virtude', seria capaz de servir da neurose para fins próprios.
- Pode tentar ganhar vantagens do meio, provocando a piedade, a atenção, o amor, a concessão de suprimentos narcísicos ou até compensações monetárias.

- Os lucros secundários possíveis são muito variáveis:
1. LUCROS SECUNDÁRIOS DO MUNDO EXTERIOR: Consiste em ganhar atenção pelo fato de estar doente. Qual a necessidade especial de "ganhar atenção"?
Precisa-se de atenção ou como satisfação sexual (substituto do amor), ou como tranquilização e promessa de ajuda e proteção.
 Também se percebe a doença, muitas vezes, como direitos à privilégios, os quais consistem em vantagens materiais ou em proveitos psíquicos mais sutis.
 Muitas vezes os que mais lutam por "compensação" são os pacientes que de dinheiro pouco precisam, necessitando mais de afeição e tranquilização contra o abandono.
Conta-se a história de um paciente internado que indagou, quando lhe negaram privilégios especiais. "Então, para que é que estou maluco"?
- A doença mobiliza todas as vantagens do comportamento passivo-receptivo;
 "Agora já não sou eu que tenho de agir; eles tem de agir por mim."

  2. LUCROS SECUNDÁRIOS ORIUNDOS DO SUPEREGO:
O orgulho ds formações reativas, bem como o apaziguamento de um SUPEREGO severo pelo sofrimento incluem nesta categoria.
 Os privilégos da doença incluem a perda de sentimento de responsabilidade; e uma neurose pode servir para ganhar "atenção interna" do mesmo modo que para lograr atenção externa.
- O lucro secundário que resulta da avaliação dos sintomas como punição tem sido considerado primária e fundamental. Não há, porém, quem se torne neurótico apenas para o fim de sofrer.

- Predominam várias vantagens secundárias conforme os diversos tipos de neurose:
. NEUROSE DE ANGÚSTIA: Regressão á infância, proteção;
. NA HISTERIA: Lograr a atenção pela "teatralização" e obtenção de de vantagens materiais;
. NEUROSE OBSESSIVA: Proveitos narcísicos pelo orgulho da doença;
. NOS DISTÚRBIOS PSICOSSOMÁTICOS: A negação de conflitos psíquicos pela
 projeção destes na esfera física.

- Os lucros secundários ora são muito evidentes, ora ocultos. Quem consegue lograr vantagens com a doença não as larga com facilidade.
 - Logo, a ANÁLISE tem primeiro, de clarificar e trabalhar através dos lucros secundários.  Um lucro desta ordem pode até ser o único prazer que o paciente é capaz de sentir. 
-  Neste particular, um lucro secundário, dificulta às vezes, a análise de um neurótico tanto quanto a de um pervertido.

FONTE BIBLIOGRÁFICA:  FENICHEL, Otto - TEORIA PSICANALÍTICA DAS NEUROSES
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

sábado, 15 de setembro de 2012

Ψ a PSICANÁLISE é a ciência da comunicação e do encontro.

Ψ Hélio Pellegrino, Psicanalista, em entrevista à Clarice Lispector, comenta sobre a sua profissão:

“A psicanálise é, para mim, a ciência da libertação humana. Quem fala em liberdade humana fala sempre em comunicação e encontro.

A psicanálise é,  portanto, a ciência da comunicação e do encontro. O trabalho psicanalítico visa a construção de um encontro entre duas liberdades. Isto significa que a psicanálise visa o encontro entre duas pessoas, já que o centro da pessoa é a liberdade.

 Não há liberdade sem abertura ao Outro, sem consentimento na existência do Outro como tal e enquanto tal.

Os distúrbios emocionais podem ser conceituados como limitações estruturais dessa abertura, implicando uma perda em disponibilidade com respeito ao Outro.

Se minhas ansiedades básicas exigem de mim que faça do Outro um instrumento do meu esquema de segurança,  já não posso aceitar o Outro em sua essência de ser-outro.

Vou inventá-lo à imagem e semelhança de meus temores, torno-me o eixo da referência ao qual o Outro deve referir-se e submeter-se.

A psicanálise, sendo um longo convívio humano antiautoritário, é um chamamento à liberdade e à originalidade do paciente e do analista, para que ambos assumam a alegria da comunicação autêntica”.



 O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir.

É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo:  Deus comigo.
O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo. 

(in: Antonia Pellegrino. Lucidez Embriagada. São Paulo: Planeta, 2004)
*Hélio Pellegrino nasceu em Belo Horizonte, em 1924 e morreu no R.J em 1988.
Foi Psicanalista , Escritor e Poeta brasileiro, célebre por sua militância de esquerda e por sua amizade com os  Fernando Sabino,  Paulo Mendes Campos  e Otto Lara Rezende.
(Fatima Vieira - Psicóloga clínica)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ψ ‘Cada um de nós tem seu grão de loucura’ - Judith Miller

Ψ JUDITH MILLER é Filósofa - filha de JACQUES LACAN, (Psicanalista francês de maior influência do século XX), casada com o Psicanalista JACQUES ALAIN - MILLER.

- Judith preside a Fundação do Campo Freudiano, participou no Brasil do V Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana (V Enapol) e do XVII Encontro Internacional do Campo Freudiano,  sob o tema “A saúde para todos, não sem a loucura de cada um”, em entrevista ao GLOBO refere:

-  No mundo de hoje, em que a indústria farmacêutica vende antidepressivos como bombons e proliferam métodos prometendo “cura” rápida dos problemas,  -  parte numa espécie de cruzada contra a ideia de que se pode (ou deve) apagar o “grão” de loucura que existe em cada ser humano para adaptá-lo às exigências da sociedade de consumo e produção.

- JUDITH critica duramente as chamadas terapias cognitivo-comportamentais (TCC) que, segundo ela, buscam “normalizar” e adaptar o comportamento das pessoas, prometendo a “felicidade”.

- O que bate de frente, explica, com um dos preceitos da psicanálise: Cada um de nós tem seu pequeno grão de loucura.

- Lacan anunciou no seu seminário: “todo mundo é louco”.

- É este grão de loucura que faz com que cada um de nós tenhamos um modo próprio de ser, de abordar as coisas, de reagir. A socialização não pode evitar isso, sustenta ela.

- Neste congresso faz o lançamento do livro: Perspectivas dos ‘Escritos’ e dos ‘Outros escritos’ de Jacques Lacan (Zahar Editora), do Psicanalista Jacques-Alain MILLER.

MILLER acusa os chamados terapeutas comportamentais de tratarem as pessoas como “uma força de trabalho”.

- E quem não se adapta à norma acaba reduzida à categoria de “perigosa para o capitalismo”.
 
- Uma pessoa não pode ser reduzida a um consumidor/ produtor! revolta-se.

- A psicanálise, explica a filha de LACAN, trabalha no sentido oposto: do reconhecimento e aceitação da singularidade de cada pessoa.

 - LACAN inventou um dispositivo em psicanálise chamado “la passe”, através do qual se verifica que, no final de uma análise, a pessoa analisada sabe discernir qual a sua diferença  em relação às outras pessoas. Ou seja: ele vai saber viver com esta diferença em sociedade.

 - A filósofa ataca também as indústrias farmacêuticas e a Organização Mundial de Saúde (OMS), por associarem saúde mental à “felicidade de todos”.

- A “depressão” de hoje, diz, é sobretudo “uma questão comercial”: Querem vender antidepressivos que colocam as pessoas num estado eufórico, quando não há razão de estar eufórico.

- Aos que acreditam em “terapias rápidas que visam erradicar logo os sintomas”, Judith Miller responde com uma frase do pai da psicanálise, Sigmund Freud: sintomas rechaçados pela janela voltam pela porta.

- A psicanálise, diz JUDITH, “não promete a felicidade, mas assegura um desejo de viver esclarecido”. 

(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ψ JUNG e os 'Momentos Mágicos'


Ψ CARL GUSTAV JUNG criou o termo SINCRONICIDADE em 1929, para designar dois ou mais eventos que parecem ter uma correlação, sem que se encontre um nexo causal entre eles.

- Segundo JUNG, os fenômenos da sincronicidade “mostram que o não psíquico pode se comportar como o psíquico, e vice-versa, sem a presença de um nexo causal entre eles”.

-  Sincronicidade é o princípio da conexão acausal.  Ela se dá sempre que um evento interno à psiquê, conecta-se a outro externo, sem um nexo causal entre eles, mas com o mesmo conteúdo significativo.

- Seu conceito está geralmente associado ao de simultaneidade e de 'COINCIDÊNCIA SIGNIFICATIVA' de dois ou mais acontecimentos. - Desde o início de seu trabalho com os sonhos, JUNG percebeu que os motivos oníricos tendem a coincidir relativamente com situações reais, com um significado semelhante ou mesmo com situações reais idênticas.

- Alguns tipos de eventos em sincronicidade:
1. Pensar ou falar num animal e ele aparecer no ambiente. Tal evento, dentre outras possibilidades, pode estar associado a características daquele animal, que merecem atenção e reflexão na personalidade da pessoa. A vitalidade instintiva característica do animal participante do evento denota a existência de um campo de força ctônica presente.

2. Pensar em alguém e se encontrar em seguida com aquela pessoa. Esse evento pode estar simbolizando uma necessidade da ampliação de contatos sociais na vida da pessoa. Pode também representar a conectividade existente, e nunca rompida, entre aqueles que um dia já estiveram juntos. Exemplo: alguém está assistindo a um filme qualquer num cinema e uma cena o faz lembrar de um episódio de sua infância, ocorrido há muitos anos, no qual brincava com um amiguinho que não vê desde aquela época, e, ao sair do cinema, encontra este mesmo amigo. Ocorrências como essas podem trazer pistas sobre o significado da vida e de como conduzi-la adequadamente.

3. Lembrar de uma pessoa e receber uma carta ou e-mail dela, depois de muito tempo que não a vê. Em acréscimo ao item anterior, denota a necessidade da pessoa ampliar suas conexões afetivas. O contato via computador, denominado de virtual, não alcança a complexidade afetiva daquele ocorrido pessoa a pessoa.

4. Alguém morrer no mesmo dia e mês em que a pessoa nasceu ou que algum parente muito próximo tenha morrido ou nascido. A sincronicidade de datas diz respeito, além de algum tipo de relação com aquela outra pessoa, aos ciclos da vida e ao uso do tempo. A pessoa deve estar necessitando avaliar melhor as fases de sua vida e se viveu as experiências pertinentes.

5. Alguém morrer e no mês, dia ou hora seu relógio deixa de funcionar. Tal evento, para quem o percebe, pode denotar a consciência do aproveitar as energias disponíveis no momento presente. O tempo e sua marcação, como componente da sincronicidade, podem estar revelando a uma necessidade maior de considerá-lo e de valorizá-lo.

6. Alguém sofrer um acidente e algum de seus objetos, a quilômetros de distância, desaparece ou se quebra. Isso pode simbolizar a conectividade de tudo no universo, bem como a necessidade do desapego. A relação entre a pessoa e um objeto à distância pode simbolizar vínculo com o local onde ele se encontra e o significado a ele atribuído.

7. Pensar num número e se deparar seguidas vezes com o mesmo durante o dia, em placas de carro, telefones, documentos, etc. A soma dos números vistos pode ter um significado particular para a vida da pessoa. O número é uma abstração que aponta para a subjetividade da mente humana.

8. Ocorrência de eventos que se assemelham, vividos por pessoas que não se conhecem e que culminam com imprevisível convergência, percebidos por alguém que os associa mentalmente. Quem associou aqueles eventos síncronos pode estar sendo chamado a uma busca espiritual.

- Há pessoas que parecem atrair com maior freqüência os fenômenos em sincronicidade. São como ímãs psíquicos para que eventos externos coincidam com aspectos psíquicos internos. Essas pessoas recebem constantemente sinais de que a vida contém muito mais do que eventos causais; aspectos que são representações de processos psíquicos ainda não compreendidos.


-  Isso é observado na maioria dos médiuns. Os fenômenos da sincronicidade parecem ocorrer em maior quantidade e intensidade com eles. É possível que tenham o inconsciente mais “aberto”.

- Quando um evento em sincronicidade é percebido por uma pessoa, esta deve, depois de tentar entender o que aconteceu, relevar a ocorrência do fato em si e ir em busca da compreensão do Universo sob outro paradigma além do material.  Deve começar a compreender que a vida contempla aspectos espirituais importantes, nos quais deve investir.

- A freqüência de eventos em sincronicidade na vida de uma pessoa representa um 'insight' importante para que sua existência encontre um novo significado e aconteça a necessária transformação nos  seus valores e percepções.


- Um fato se torna sincrônico quando traz uma emoção e um significado novo à vida e tal acontecimento pode transformar uma pessoa muito racional, que não deixa a emoção brotar, em alguém mais sensível.

- Há fenômenos em sincronicidade cuja compreensão extrapola a inteligência comum, pela complexidade de sua ocorrência e não encontram explicação pela  lógica humana.


- São fenômenos que envolvem a morte, a mediunidade, o transporte e materialização de objetos em ambientes fechados, dentre outros.

- No livro  SINCRONICIDADE - A PROMESSA DA COINCIDÊNCIA,  a escritora americana DEIKE BEGG ensina que nossas habilidades cognitivas são aperfeiçoadas quando estamos em ambientes desconhecidos (daí, viajar sozinho força o exercício destas habilidades).
- Nessas ocasiões,  precisamos confiar mais no instinto e na intuição , menos no racional e seguir o sinais destas experiências tão peculiares.


- A sincronicidade pode acontecer com qualquer pessoa, mas é preciso estar em contato consigo mesmo para perceber (quem medita com freqüência percebe isto).

- Às vezes, ocorre um fato externo e o significado subjetivo, interior, ocorre em seguida. É possível  que situações sincrônicas são recados dos céus, um toque divino que garante que não estamos sozinhos...

 BIBLIOGRAFIA:
NOVAES, Adenáuer. Mito Pessoal e Destino Humano. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2005.JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. Petrópolis: Vozes, 2000, 10ª edição, volume VIII/3 das Obras Completas
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 2 de setembro de 2012

Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado. (Rubem Alves)

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
( Miguel Torga, in: Frustração - Diário XV)

Ψ outros fragmentos ... Barthes

Ψ O OUTRO ESTÁ DOENDO EM MIM






*CARINHO: (...) o gesto carinhoso diz: peça-me tudo o que possa adormecer seu corpo, mas não esqueça também que o desejo um pouco, levemente, sem nada querer agarrar imediatamente
*Se recebo o gesto carinhoso sinto-me pleno: esse gesto já seria um condensado miraculoso da presença!
*Mas se o recebo (o que pode ser simultâneo), no campo do desejo, sinto-me inquieto: o carinho, de direito, não é exclusivo, devo portanto admitir que o que estou recebendo, outros também recebem (espetáculo que me é mesmo, por vezes oferecido).
*ALI ONDE VOCÊ É CARINHOSO QUE VOCÊ DIZ SEU PLURAL.
*AUSÊNCIA é todo episódio de linguagem que encena a ausência do objeto amado - sejam quais forem sua causa e duração, tende a transformar essa ausência em provação de abandono.
(...) ora só existe ausência do outro: é ele que parte, sou eu quem fica, o outro está em estado de perpétua partida, de viagem; é o migrador, fugidio; eu sou o eu que amo, por vocação inversa sou o sedentário, imóvel, à disposição, à espera, plantado num mesmo lugar, em sofrimento, como um pacote esquecido num canto obscuro da estação.
 *A ausência amorosa vai apenas numa direção, e pode ser dita apenas a partir de quem fica - e não de quem parte: eu, sempre presente, constitui-se apenas diante de ti sempre ausente.
*Dizer a ausência é desde logo postular que o lugar do sujeito e o lugar do outro não podem permutar; quer dizer: "sou menos amado do que amo".
... algumas vezes, acontece-me de suportar bem a ausência, Sou então 'normal': alinho-me ao modo como 'todo o mundo' se porta, obedeço com competência ao adestramento. Ajo, espero e sei me alimentar de outras coisas além do seio materno.
*Essa ausência bem suportada nada mais é do que o esquecimento, 'me distraio'.
*Sou infiel, esta é a condição de minha sobrevivência; pois se não esquecesse, eu morreria.
(...) O amante que não esquece algumas vezes morre por excesso, cansaço, tensão de memória." (Werther)  
*Ao acordar desse esquecimento prontamente instauro uma memória, uma perturbação. 
(...) a emoção da ausência; 'SUSPIRAR PELA AUSÊNCIA CORPORAL as duas metades do andrógino suspiram uma pela outra, como se cada sopro, incompleto, quisesse se misturar no outro: imagem do beijo, na medida em que se fundem as duas imagens num só: na ausência amorosa, sou tristemente, uma imagem descolada, que seca, amarelece.
(...) a ausência do outro dura e preciso suportá-la. Vou portanto, manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vai-e-vem produzir ritmo, abrir a casa da linguagem.
(...) a ausência torna-se prática ativa, um atarefamento (que me impede de fazer qualquer outra coisa. Cria-se uma ficção com múltiplos papeis (dúvidas, recriminações, desejos, melancolia). 
* Essa encenação 'linguageira' afasta a morte do outro: um momento brevíssimo, manipular a ausência é alongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia resvalar secamente da ausência para a morte.
*A frustração teria como figura a presença (vejo todo dia o outro, entretanto, este não me preenche e está ali, mas continua a me fazer falta na minha imaginação).
*A CASTRAÇÃO, por sua vez teria como figura a intermitência (aceito separar-me um pouco do outro 'sem chorar', assumo o luto da relação, sei esquecer).
* A ausência é a figura da privação; simultaneamente, desejo e necessito. O desejo se esfacela na necessidade: Nisso consiste o fato obsessivo do sentimento amoroso. 
* (o desejo está ali, ardente eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do desejo nunca atingem a plenitude adorada.
*O discurso do desejo é um texto composto de dois ideagramas: há os braços erguidos do DESEJO e os braços estendidos da NECESSIDADE.
*Oscilo, vacilo entre a imagem fálica dos braços erguidos e a imagem infantil dos braços estendidos.
- budismo: o mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água durante muito tempo o ar se rarefaz: pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer, no último momento o mestre retira o discípulo e reanima-o: "quando você desejar a verdade, como desejou o ar, então saberá o que ela é."
*A ausência do outro segura minha cabeça debaixo da água; pouco a pouco subo, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha 'verdade' e preparo o intratável do amor.
BARTHES, Roland - Fragmentos de um Discurso Amoroso - Martins Fontes, 2003
Ψ  Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

Ψ A DINÂMICA PSÍQUICA DO ESTRESSE


 Ψ Segundo FENICHEL os impulsos instintivos são experimentados diretamente como 'energia urgente'.
- Existem certas percepções que tem caráter provocativo, exigem ação imediata.
- Relacionando esta experiência com o modelo reflexo pode-se admitir que os impulsos instintivos tenham a tendência geral de baixar o nível de excitação pela descarga de tensões que os estímulos excitantes produziram.
- Existem contra-forças que a isso se opõem e a LUTA que assim se cria constitui a base do reino dos fenômenos mentais.
 - FREUD coloca a questão de que há uma aspiração do organismo de 'CONSERVAR O NÍVEL DE EXCITAÇÃO', e não abolição total de toda tensão.
- Há alguns comportamentos que parecem dirigir-se não para libertar-se de tensões, mas antes para 'CRIAR NOVAS TENSÕES'.
- É tarefa da PSICOLOGIA estudar e compreender as CONTRA-FORÇAS que tendem a bloquear ou a adiar a descarga imediata.
- Os impulsos para a descarga representam a tendência biológica primária, os impulsos opostos são trazidos ao organismo do exterior.
- Lapsos de língua, erros, atos falhos são exemplos de conflitos que se produzem entre a luta pela descarga e as forças que a isso se opõem; alguma tendência que haja sido rejeitada, quer por um desejo pela 'repressão', quer por um desejo não exprimi-la aqui e agora encontra expressão distorcida, que contraria a vontade consciente adversa.
- Quando a tendência à descarga e a tendência à inibição são igualmente fortes, não há exigência externa de atividade, mas a energia consome-se em luta interna oculta o que se manifesta clinicamente no indivíduo como SINAIS DE EXAUSTÃO SEM PRODUÇÃO DE TRABALHO PERCEPTÍVEL.
- FREUD definiu como PSICOECONOMIA, as pessoas sentem-se cansadas porque andaram a consumir energia numa luta entre as forças internas.
- FENICHEL cita o caso de alguém conseguir dominar totalmente a sua irritação e posteriormente, em outra situação insignificante acaba por reagir violentamente. Ou seja, tem-se que admitir que a primeira quantidade de irritação a qual foi dominada, ainda estava trabalhando nela, preste a descarregar mais tarde, na primeira oportunidade.
- OU SEJA, OS IMPULSOS FORTES QUE EXIGEM DESCARGA SÂO MAIS DIFÍCEIS DE REPRIMIR QUE OS FRACOS.
- Existe uma 'permuta de energia mental', uma distribuição econômica de energia disponível entre a ENTRADA, CONSUMO e SAÍDA.
- Outro exemplo da utilidade do conceito econômico segundo FENICHEL, é o que se vê no fato de as neuroses frequentemente irromperem na puberdade e no climatério.
- A pessoa afetada conseguiu resistir a certa quantidade de excitação instintiva não descarregada mas, aumentando a quantidade absoluta desta excitação por força de alterações físicas, as contramedidas já não bastam.
- AQUELES QUE TEM PROBLEMAS INTERNOS A RESOLVER PRECISAM APLICAR NELES GRANDE QUANTIDADE DE SUA ENERGIA, POUCO RESTANDO PARA OUTRAS FUNÇÕES.
- Segundo FECHNER, o aumento da tensão psíquica é sentido como desprazer e toda diminuição como prazer. Mas outras concepções referem tensões prazerosas como a excitação sexual, e falta de tensão dolorosas como o tédio, a sensação de vazio.
- O prazer da excitação sexual chamado PRÉPRAZER, quando a esperança de produzir uma descarga no prazer final ulterior desaparece; o caráter prazeroso do PRÉPRAZER prende-se a uma antecipação mental do prazer final.
- O DESPRAZER do tédio se prestarmos mais atenção vem a corresponder não a uma falta de tensão, mas a uma excitação cujo objetivo é inconsciente.
- FENICHEL sinaliza ainda sobre a qualidade do 'CONSCIENTE' referindo que o fato de um impulso ser ou não ser consciente nada revela do seu valor dinâmico.
- Os fenômenos consciente não são mais fortes do que os inconscientes, e nem é verdade que o que é inconsciente seja 'verdadeiro motor' da mente.
- Os fenômenos consciente não são mais fortes do que os inconscientes, e nem é verdade que o que é inconsciente seja 'verdadeiro motor' da mente.
- FENICHEL ainda cita que há outros fenômenos inconscientes com forças intensas que lutam pela descarga, mas que são reprimidos por uma força igualmente prazerosa, a qual se manifesta sob a forma de RESISTÊNCIA.
- O material inconsciente sob alta pressão tem somente um objetivo; DESCARGA. A energia livremente flutuante se encontra livre das exigências da realidade do tempo, da ordem ou das considerações lógicas.
- CONDENSA-SE ou DESLOCA-SE seguindo apenas os interesses do aumento das possibilidades de descarga.
- E esta modalidade de funcionamento da mente arcaica mantém-se efetiva na esfera do inconsciente; nas partes mais diferenciadas da mente pouco a pouco é suplantada pelo 'processo secundário' organizado.

Bibliografia:
FENICHEL, Otto, Livraria Atheneu - Rio de Janeiro - São Paulo, 1981
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)