sábado, 26 de março de 2011

Ψ As Plantas Nos Sonhos

imagem: Sergio Surkamp
 















A Floresta:"Menos aberta do que a montanha, menos fluida do que o mar, menos sutil do que o ar, menos árida do que o deserto, menos escura do que a gruta, mas fechada, enraizada, silenciosa, verdejante, sombria, nua, múltipla, e secreta, a floresta de faias é arejada e majestosa; a floresta de carvalhos, nos grandes caos rochosos, é céltica e druídica; a de pinheiros, nas encostas arenosas, evoca um oceano ou origens marítimas. E é sempre a mesma floresta". (Bertrand d’Astorg)
- Entre os Celtas, a floresta era santuário em estado natural.
 - Na floresta de Brocéliande, na Bretanha, os sacerdotes (druidas) reuniam-se para as cerimónias rituais.
 - Os Gregos, com a floresta de Dodona. Na Gália, aliás, os templos de pedra só foram construídos por influência romana, após a conquista.
- Também na Índia os ascetas budistas, nelas procuravam refúgio para meditar e encontrar o repouso necessário às suas práticas religiosas.
- No Japão, as florestas de coníferas são verdadeiros santuários naturais. 

- Na China, a montanha coberta por uma floresta é quase sempre o local de um templo. Mas, à semelhança dos outros símbolos, também a floresta apresenta uma vertente dual: se é local privilegiado de diálogo com os deuses, se é oásis de paz e de silêncio, também pode tornar-se devorador e terrífico, selva virgem onde espreitam mil perigos e armadilhas. 
 - Em termos psicanalíticos, a floresta se encontra entre os grandes símbolos do inconsciente. - Nos contos de fadas, lendas e mitos do mundo inteiro, abundam imagens de florestas que devem ser percorridas, desvendadas nos seus caminhos labirínticos.
 - O terror, que provocam os monstros e os segredos das florestas segundo Jung, seria o nosso medo pressentido, perante as revelações do nosso inconsciente.
 - Só atravessa a floresta o herói que ousar enfrentar os seus medos. No final como recompensa, o tesouro escondido, a Bela Adormecida, o elixir da imortalidade, o Graal...
 A ÁRVORE: Um dos grandes arquétipos da Vida. Na Técnica Projetiva do Desenho - HTP (house, tree, person), ao desenhar a árvore o sujeito estará projetando sua autoimagem. (Os frutos são os filhos, os projetos, os sonhos que deram certo e os que foram frustrados).
- Fala-se: "ele é de boa cepa"!, quando nos referimos a natureza inerente de uma pessoa (caráter). No Teste Projetivo, o indivíduo ao desenhar a árvore projeta tudo que se relaciona a personalidade no tronco e nos galhos.

 - Na Bíblia, refere-se à figueira amaldiçoada que não deu frutos.
- Segundo Buck, o tronco frequentemente, representa a área básica do autoconceito, a força do ego...
- E velhos salgueiros dando flor, quando o filho (fruto), vem já na maturidade. 
- Fala-se da árvore *genealógica e da **árvore da vida. (* laços familiares que compõem uma determinada família/ **uma das árvores especiais que Deus colocou no jardim de éden).
- A árvore representa em todas as tradições e culturas, do ponto de vista simbólico, o intermediário, entre os três níveis do cosmos:
- o nível subterrâneo – já que as suas raízes mergulham no mundo ctoniano;
- o mundo terreno – o tronco ergue-se, verticalmente, convivendo com os demais elementos da natureza;

 - Rosa: famosa pela sua beleza, forma e perfume.

 - Na Índia, a rosa cósmica (Triparasundari), serve de referência à beleza da Mãe Divina, designando perfeição total, uma realização sem defeito. - Como se verá, a rosa simboliza a taça da vida, a alma, o coração e o amor. Pode-se contemplá- la como uma mandala, e considerá-la um centro místico.
 - A rosa é, na iconografia cristã, quer o cálice que recolhe o sangue de Cristo, quer a transfiguração das gotas desse sangue, quer o símbolo das chagas de Cristo.
 - Um símbolo rosa-cruz apresenta cinco rosas: uma no centro e uma sobre cada um dos braços da Cruz. Tais imagens evocam quer o Graal, quer o orvalho celeste da Redenção.
 - A rosa no centro da Cruz (Sagrado Coração), remete também para a rosa mística das litanias cristãs, símbolo da Virgem.
 - A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo da Quaresma, era um símbolo de poder e de instrução espirituais. Representando uma metáfora da ressurreição e da imortalidade (a rosa, pela sua relação com o sangue derramado, aparece ainda, como símbolo de um renascimento místico). 
 - As roseiras eram consagradas a Afrodite, bem como a Atena (a deusa que nasce em Rodes, a ilha das rosas), o que parece sugerir os mistérios da iniciação.
- Para os gregos, a rosa era uma flor branca, até que Adónis, protegido de Afrodite, foi ferido de morte. A deusa ao socorrê-lo, picou-se num espinho, e o sangue coloriu as rosas que lhe eram consagradas.
- E Hécate, deusa dos infernos, era por vezes representada com a cabeça cingida por uma grinalda de rosas.

 - A rosa tornou-se, assim, um símbolo do amor, do amor puro.
- O amor paradisíaco será comparado por Dante ao centro da rosa.
 - Na alquimia branca ou vermelha, a rosa é uma das flores prediletas, cujos tratados se intitulam muitas vezes “roseiras dos filósofos”.
 - A rosa branca, ligada à pedra em branco, objetivo da pequena obra, enquanto que a rosa vermelha foi associada à pedra em rubro, objectivo da grande obra.


Referência Bibliográfica: Lévi-Strauss - O Pensamento Selvagem. Campinas,SP: Papirus, 1989.
Jean Chevalier; - Alain Gheerbrant - Dicionário dos Símbolos. Lisboa, Ed. Teorema, 1994.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

Ψ O Animal no Sonho

  imagem: n.r.parker
                                                         
Na interpretação dos sonhos deve-se observar:
Símbolos naturais
– derivados dos conteúdos inconscientes da psique individual.
Símbolos culturais – símbolos usados para expressar verdades eternas”, imagens coletivas aceitas pelas sociedades civilizadas.
Símbolos arquetípicos – símbolos comuns a todos nós desde os primórdios da humanidade.

- Animal, enquanto arquétipo, representa as camadas profundas do inconsciente.
- São símbolos das forças cósmicas, materiais ou espirituais, a exemplo dos símbolos do Zodíaco, que evocam as energias cósmicas.
- Alguns deuses egípcios têm cabeças de animais e o Espírito Santo é representado por uma pomba. A pomba corresponde à razão na sua apreensão do mundo visível, enquanto a rola, amante da solidão, procura a realidade invisível.
- Na religião celta os animais possuem um elevado valor simbólico: o javali simboliza a função sacerdotal, o urso a função real; a ave, mensageiros do outro mundo.
- O cavalo exerce a função de psicopompo, guia das almas ou do neófito através do labirinto da vida.
- O animal em nós é essencialmente a libido primitiva e bruta, o conjunto de forças profundas que nos animam.

- Jung, em "O homem e os seus símbolos", afirma: "O animal, que é no homem a sua psique instintiva, pode tornar-se perigoso, quando não é reconhecido e integrado na vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição da unificação do indivíduo, e da plenitude do seu desabrochamento".
- Os animais que aparecem nos sonhos e nas artes, formam identificações parciais com os homens: são aspectos e imagens da sua natureza complexa, espelhos das suas pulsões profundas, dos seus instintos domesticados ou selvagens.
- Cada um deles corresponde a uma parte de nós próprios, integrada, ou a integrar.
- boi: docilidade, humildade, gratidão; aprender a louvar os caminhos dos outros (o boi se sacrifica para nutrir).
- Já o touro, lembra virilidade, sensualidade, um alerta à sexualidade reprimida.
- cabra: segue seu impulso.
- carneiro: evoca o Logos por causa do seu carácter macho e ativo.

- gato: a imagem evoca flexibilidade, disponibilidade para a transformação, plasticidade da conduta, da feminilidade, do mistério; Independência, é ele que nos escolhe... Se um gato aceitar seu carinho na certa você é um privilegiado, ou do contrário, ele foge e se encolhe...., a leitura do felino é direto na alma. 
- Numa abordagem psicológica diz-se que o animal irracional somos nós, as energias vitais do instinto que se agitam em nós, e que por vezes tomam o comando e nos controlam.
- Os animais são aspectos obscuros, perigosos e instintivos de nosso inconsciente e se a anima/ animus aparece como um animal, é porque ela/ele ainda não é aceito pelo ego vígil em sua totalidade de aspectos.
- Quanto mais livres e selvagens forem, mais o subconsciente se sente oprimido pelos seus temores, angústias e complexos.

- Quando ferozes e que atacam, simbolizam perigosas tendências agressivas.
- Os animais violentos têm aspectos sexuais e simbolizam conflitos eróticos.

- A fuga, equivale a fugir do próprio subconsciente.
- Domesticá-los é tentar controlar os instintos mais primitivos como a libido ou os conteúdos do subconsciente infantil que permanecem.

- Os animais domésticos equivalem a paixões controladas. Um cachorro revela desejo de afeto materno.
- Animais mágicos aparecem via de regra, como uma simbolização do pai.
- Assim, a sonhar que você está lutando com um animal significa uma parte oculta de si mesmo que você está tentando rejeitar e empurra para trás em seu subconsciente.

- Quando o ego onírico encontra-se sacrificando um animal, isso simboliza que é uma parte do ego vígil que vai ser sacrificada, a sua instintividade.
- A espécie de instinto que está se manifestando através dessa imagem é o que está associado ao animal específico,  o leão como uma representação do instinto do leão; o urso, o tigre...

- Entretanto, se o ego onírico acaricia o animal que o ego vigil teme, refere simbolicamente a repressão cultural do incesto.
- Animais deformados, denunciam a concepção desagradável que o sonhador tem do instinto.

- leão: a crina flamejante, sol dos mais fortes calores do verão, poder do fogo criador e destruidor, é a imagem da paixão devoradora; livre por natureza.

- Nietzsche sobre o leão: "(...)  violento, solitário, ímpio, assim deve ser o querer leonino. Libertado de uma felicidade servil, dos deuses e dos cultos, sem medo, terrível, grande e solitário, assim deve ser o querer do verdadeiro. É no deserto que sempre viveram os verdadeiros, tal como os espíritos livres, senhores do deserto".
- cavalo: a liberdade dos impulsos, o reconhecimento das pulsões naturais ou a revolta contra o peso existencial, pode evocar imagens de resignação, de derrota. É guia dotado da clarividência do instinto. Convida a uma reabilitação das pulsões recalcadas. O cavalo onírico é revelador de uma animação psíquica, da reorganização dos fluxos energéticos.
- cavalo-marinho: evoca os valores da água (o inconsciente, aspectos da valores da feminilidade, intuição, emoções e sentimentos ).
- Os peixes: “o silêncio do mar” ... a alma sente o mundo aquático como o mundo em que reina, o silêncio. O simbolismo do peixe conduz-nos a uma longa viagem. Todas as grandes revelações religiosas estão marcadas pelo símbolo do peixe é o emblema de Cristo e sua Igreja. Esta pele que ninguém pode ferir é a fronteira que ninguém pode atravessar sem o auxílio do peixe-guia, do impulso vital autêntico, da lucidez que conduzirá aos tesouros do inconsciente, evitando os perigos da dispersão esquizofrénica.
 - golfinho: traz o sonhador do limiar do outro mundo até à luz, à vida, basta evocá-lo para sentir a alma mais leve. Pode ser considerado o agente mais seguro para reativar a dinâmica vital do ser humano.


Jung refere: "Todos aqueles que passam por esta experiência, que sabem que o tesouro repousa na profundeza das águas e que irão tentar extrai-lo de lá, nunca devem, sob preço algum, esquecer quem são, perder a sua consciência…"
Referência Bibliográfica:
 BACHELARD,G.  -  O Ar e os Sonhos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1990.
HILLMAN, J. - Cidade e Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993. The Dream and the Underworld. New York: Harpercollins, 1979.
LÉVI-STRAUSS,C. - O Pensamento Selvagem. Campinas,SP. 1989.
JEAN ChHEVALIER; Alain Gheerbrant - Dicionário dos Símbolos. Lisboa, Ed. Teorema, 1994.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 20 de março de 2011

Ψ Sobre Sonhos


- *Stanislav Grof, 1931,  psiquiatra tcheco, pioneiro nas pesquisas com substâncias psicodélicas e estados alterados de consciência em suas pesquisas com pacientes dependentes químicos refere que psicofármacos, substâncias químicas, psicodélicas ou não, alteram os estados de consciência, provocando visões muito semelhantes às obtidas nos estados de êxtase dos místicos e reduzem a quantidade de sono **REM. (**Rapid Eye Movements') - é um estado neurológico e fisiologicamente ativo. No sono REM, as ondas ocorrem cerca de 60 a 70 por segundo.
- Stanislav Grof diz ainda, que a ingestão destas substâncias produzem sonhos de difícil interpretação, face ao grande volume de símbolos desconexos que afloram ao córtex, oriundos do inconsciente pessoal e coletivo.
- Em pacientes psiquiátricos a análise do sonho deve ser cautelosa. O “sono artificial” é repleto de inconsistências simbólicas que podem induzir a interpretações bizarras pelo sonhador ou pelo analista.
- Os símbolos oníricos desses pacientes geralmente estão contaminados, merecendo uma nova redução às imagens mais próximas da consciência.
- Solicitar que eles desenhem, pintem ou representem os sonhos com argila, será muito mais valioso que a análise descritiva direta.
- Quando aplico Testes Projetivos nestes pacientes, observo componentes emocionais importantes e temos subsídios para prosseguir a Psicoterapia.
- Pacientes depressivos conteúdos oníricos estão voltados ao passado, normalmente são vítimas nos seus enredos (autopiedade), relatam sofrimento de abandono, ausência da mãe...
- Ainda que a dinâmica psíquica seja camuflada pelo uso de psicofármacos, em determinadas circunstâncias eles são imprescindíveis como redutor da dor e angústia do paciente.
- Porém, chega um momento em que a dor maior é o conflito não resolvido.

- Atualmente, o uso abusivo de psicofármacos anestesia o paciente.
- Este quanto mais evolui em seu processo de individuação e de cura, (através da Psicoterapia ou outros métodos ...), mais questiona o uso de qualquer substância química.

- Com a evolução do tratamento psicoterápico, a tendência é deixar gradativamente os psicotrópicos.
 

 - O indivíduo, em processo de individuação, terá sonhos significativos em relação a orientação que necessite. As imagens procurarão mostrar-lhe a necessidade de:
1. Tornar consciente o inconsciente;
2. Dar menor poder ao ego;
3. Desligar-se das influências psicológicas parentais;
4. Tornar-se independente;
5. Diferenciar-se do coletivo aprendendo a conviver com
tendências opostas.
6. Eliminar projeções e enxergar as transferências, bem
como reconhecer as personas de que se utiliza para
conviver socialmente e sua excessiva valorização;
7. Perceber seus mecanismos de defesa que tentam evitar
a aproximação dos conteúdos inconscientes;
8. Aceitação de sua sombra;
9. Confrontação com a ânima/ânimus e percepção de
suas projeções;
10. Dissolução dos complexos para enxergá-los e
trabalhá-los;
11. Deslocar o centro orientador da personalidade do ego
para o Self;
12. Estabelecer o encontro com o Self. 

 - Todos sonhamos e a cada um os seus conteúdos, se a vida existencial do sujeito é pobre, superficial e vazia, não espere que seu inconsciente produzia sonhos profundos ricos e sábios.
- A interpretação do sonho requer algum princípio, muitas vezes o manual nada esclarece, isso porque o conteúdo onírico é sempre subjetivo. Diz respeito ao sonhador e qualquer generalização será duvidosa.
- Entretanto, o Psicoterapeuta deve ter um vasto conhecimento de símbolos, arquétipos, mitos e lendas. 

 (Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

Ψ Sonhei... com a casa da infância

“A casa em que morei quando menino hoje em dia habita em mim” (Jorge Cooper)
Ψ Como psicoterapeuta com abordagem Junguiana procuro incentivar a escrita do sonho e utilizo a técnica da *AMPLIFICAÇÃO  *Para Jung, amplificar é falar a respeito e explorar o sonho. Esta técnica não deve levar o sonhador a estabelecer uma crítica ao sonho, considerando-o tolo, inconsequente ou questionável. Todo sonho traz em si uma mensagem importante que escapa à consciência do sonhador. (C. G. Jung, Obras Completas)
"Sonhei com minha casa da infância"
1. O que significa uma casa para você ?
2. O que esta casa quer dizer?
3. Existe alguém além da casa que preciso ver ou saber?
4. Que sentimentos a casa da infância despertou? 

*Na Psicologia Junguiana o que acontece nos sonhos dentro de uma casa acontece dentro de nós mesmos. Logo, sonhar com casa significa sonhar conosco. Verificando o estado geral da casa estamos analisando a nossa situação existencial.
*Nosso inconsciente usa imagens do nosso consciente para se comunicar. Então analisar sonhos com '
casa' é pensar de uma maneira bem lógica nas analogias e posturas que temos para com nossa própria casa (corpo) ou os sentimentos de quando não estamos na nossa casa.

*Casa da infância em sonhos não é raro de ocorrer. O local onde moramos quando criança deixa forte lembrança em nós, ainda que a casa já tenha sido demolida. Na memória fica registrado até o cheiro, o calor, os conflitos... O que a memória registra é o sentimento do que acontecia dentro da casa.
*O que fica registrado, impregnado na nossa mente é o sentido da vida que sentimos no tempo (o tempo tem alma, a alma do tempo que se revela na nossa história pessoal em forma de sonhos).
*A imagem que guardamos da nossa casa da infância, a nossa família naquela época nem sempre corresponde ao que de fato aconteceu, o que importa é o sentido que apreendemos, pois nem sempre o que registramos é a verdade dos fatos. É a sensação de ter sido rejeitado que o paciente refere muitas vezes em psicoterapia. 
*Como nossa vida é sempre um "vir a ser", uma gestalt inacabada... volta e meia temos que dar conta daquilo que não enfrentamos em determinada circunstância da vida. Trazer o episódio para o consciente significa que devemos ressignificá-lo, para acertar pendências, mágoas e incompreensões.
*A casa é geralmente tomada como símbolo da consciência do sonhador.
*Ela pode estar representando aspectos da vida atual ou de experiências passadas, variando pelos elementos decorativos internos e externos do imóvel do sonho.
*Quando o sonhador se encontra dentro ou fora dela, geralmente se associa aos aspectos da vida consciente em que ele necessita respectivamente integrar ou eliminar da consciência.
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

Ψ por falar em sonhos...





Ψ "Todos os dias agora acordo com alegria e pena,
Antigamente acordava sem sensação nenhuma: acordava,
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho,
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo."  (Alberto Caeiro)

                               
"Desde que as estrelas caem do céu e nossos símbolos mais altos jazem empalidecidos, uma vida secreta baila no inconsciente. Nosso inconsciente esconde água vivente, espírito que se tornou natureza, e por isto se perturba. Mas o coração arde e uma inquietude secreta roi as raízes do nosso ser." (Jung) 
 

Venha deslizando 
Com fogo nos olhos
Morda-me
 
Desafia-me
Permita que eu me realize
 
Seu veneno transmutado
Acende a chama eterna

 Abre-me as portas do céu
Cure-me uma vez mais...

*Símbolo rico, cheio de significado, a cobra nos sonhos é sinal de grande revelação, transmutação, sabedoria e cura... e não é só traição, não é só um símbolo fálico e tampouco um sinal para jogar no bicho...
*No plano material: Gera paixão, desejo, procriação, vitalidade física, rejuvenescimento.
*No emocional: Sonhos, ambição, criatividade, coragem.
*No Espiritual: Sabedoria. Ciclo de Transmutação: Viver/ Morrer/ Renascer.
*Há sim, momentos em que cobra poderá ser indício de traição: Quando a traição acontece o outro na sua alma já preparou a cilada há muito tempo.
*Só espera dar o "bote", em movimentos sinuosos cheios de cautela. 
*Quando o óbvio "não é visto" em estado de vigília o sonho é revelador...
*Ah! diriam meus pacientes: sonho é tudo uma bizarrice!
*O sonhador é o sujeito da história, se a sua vida está uma bagunça, como espera que seus sonhos sejam claros? Os símbolos só denunciam nosso estado interno. É bom contarmos com um bom Psicoterapeuta, ou um amigo paciente, os manuais de interpretação com certeza falharão!
*Relato de um sonho que me ocorreu em 29 de maio de 2010: 

Um rio, uma cobra, alguém apertava sua *garganta para extrair soro, que resultou em um balde cheio de um líquido transparente. (*uma cobra desloca o maxilar para engolir um animal maior que ela. Seu aparelho digestivo funciona sem mastigação. Seus dentes esmagam sua presa em uma polpa digestiva).
*Dialogando com o sonho:
1. Quem é você? Uma cobra num rio. 
2. Porque está aqui? Para lhe dar uma mensagem.
3. O que quer me dizer? Que o veneno pode ser sua cura.
 

4. Existe alguém além de vc que preciso ver ou saber? Se apertares minha garganta encontrarás um líquido que será a cura que tanto buscas.
5. O que significa uma cobra para você? (Faço associação livre): Ondulação, sinuosidade, algo que arrasta, coluna vertebral, a kundalini.
Renovação, muda a própria pele. Astuciosa. Evasiva. Mundo material terreno. É a morte pelo veneno. É um símbolo da Psiquê inconsciente. A libido introvertida. A energia interna que vai e vem. Sedutora nos conduz as trevas e às profundezas. Criativa e destrutiva. Macho e Fêmea. Venenosa e Curativa. Seca e úmida. Espiritual e material. Representa o poder da criação porque engloba a sensualidade, a energia psíquica, a alquimia, a reprodução e a imortalidade.
*29/ 06/ 2010 - Consulta com um Psicoterapeuta: 'Oriento você a procurar um médico homeopata'.
*A cura pelo semelhante. Um mês após o sonho com a indicação do psicoterapeuta, inicio o tratamento homeopático e ortomolecular.
*Você pode observar que uma interpretação superficial do sonho acabaria abafando toda a palpitação e incerteza que surgiu com o movimento rico da cobra... isso seria expulsar a cobra do paraíso com sucesso!
*Eis a mensagem do sonho: devemos estar atentos às sincronicidades, como diria Jung!
A abordagem Freudiana seria insuficiente para a análise deste sonho, por ser reducionista.

Ψ FatimaVieira - Psicóloga Clínica

domingo, 6 de março de 2011

sobre o silêncio

- A raiz em latim para silêncio, 'silere', dizer nada, é relacionada a 'sinere', permitir estar em um lugar. Somos arrancados daqueles lugares onde a linguagem falha tantas vezes...
- O silêncio costuma ser, um meio de isolamento.
- Atualmente é a ausência do silêncio que trabalha para tornar o mundo atual vazio e isolado.
- As reservas de silêncio tem sido invadidas e esgotadas. A máquina marcha globalmente adiante e o silêncio é o lugar minguante onde o barulho ainda não penetrou.
- A civilização é uma conspiração de barulhos, desenvolvida para encobrir os silêncios desconfortáveis.
- Wittgenstein refere que o presente não-silencioso é um tempo de evaporação da atenção, erosão do pensamento critico, e uma capacidade diminuída de sentir profundamente as experiências. o Silêncio, assim como o escuro, é difícil de obter; mas a mente e o espírito precisam de sua substância.
- Certamente existem silêncios forçados de medo, angústia, conformismo, cumplicidade, que são muitas vezes estados inter-relacionados. E a natureza tem sido progressivamente silenciada, como documentou Rachel Carson em seu profético livro Silent Spring (Primavera Silenciosa)/
('Silent Spring' tornou-se um marco da revolução ambientalista e do despertar da consciência ecológica.)
- "Tem existido um silenciamento da natureza, de nossa própria natureza" conclui Heidegger, e precisamos deixar este silêncio, como silêncio, falar... Isto ainda se dá muitas vezes, apesar de tudo, falando mais alto do que palavras.
- O grande silêncio do universo gera uma reverência silenciosa, sobre o que Roman Lucretius referiu no seculo 1 ac: "Primeiro de tudo contemple a cor pura e limpa do céu, e tudo o que contém: as estrelas errantes por todos os lugares, a lua, o sol com sua luz e incomparável brilho".
- Descendo a Terra, a natureza é preenchida com silêncios. A alternação das estações são um ritmo de silêncio; a noite o silêncio desce ao planeta, apesar de muito pouco atualmente. Os elementos da natureza assemelham-se a grandes reservas de silêncio.
- A descrição de Max Picard é um poema: "A floresta é como um grande reservatório de silêncio do qual o silêncio escoa num fino fluir, num rio calmo preenchendo o ar com seu brilho. A montanha, o lago, os campos, o céu - todos eles parecem esperar por um indício de esvaziar seus silêncios tornando-os em coisas ruidosas nas cidades do homem".
- O Zen ensina que "o silêncio nunca varia..." Mas nosso foco deve ser cultivado caso queiramos nos afastar do vazio universalizante da recente modernidade.
- O silêncio é primário, invocando a presença para si mesmo, portanto é uma conexão para o reino das origens.
Na tecnoesfera industrial, a Máquina tem por pouco o sucesso em banir a quietude. Uma história natural do silêncio é necessária para estas espécies ameaçadas.
- A modernidade atordoa. Para Picard, nada tem mudado o caráter humano tanto quanto a perda do silêncio.
- Thoreau chamou o silêncio de "nosso asilo inviolável", um refúgio indispensável que deve ser defendido.
- O silêncio é necessário contra o som. O silêncio é temido pela manipulativa cultura de massas, da qual se mantém separada, uma forma de resistência precisamente porque o silêncio não pertence a este mundo.
- Muitas coisas podem ainda ser escutadas contra a pano de fundo do silêncio; desta forma um caminho é aberto, um caminho para a autonomia e imaginação.
- "Os sentidos se abrem em silêncio", escreveu Jean-luc Nancy. É para ser conduzido e experienciado corporalmente, inseparavelmente do mundo, no núcleo silencioso do eu.
- O silêncio pode realçar nossa incorporação, um passo qualitativo para longe da característica oficial das máquinas que trabalham tão resolutadamente para nos desincorporar.
- O Silêncio pode ser um grande auxílio em desbloquear a nós mesmos da prevalente doença da informação à solta na sociedade.
- O silêncio nos oferece o local para estarmos presentes com nós mesmos, para virmos a entender o que somos.
- Raoul Mortley pode enxergar uma "crescente insatisfação com o uso das palavras", "um enorme crescimento na linguagem do silêncio" na Grécia antiga.
- Tempos depois, Pascal ficou aterrorizado pelo "silêncio do universo", e Hegel claramente sentiu que o que não pode ser falado era simplesmente não verdadeiro, que o silêncio era uma deficiência a ser superada.
- Schopenhauer e Nietzsche enfatizaram o previamente necessário valor da solidão, divergindo do anti-silêncio de Hegel...
- Kafka sentiu que o silêncio poderia ser um modo mais irresistível do que cantar.
- "A fenomenologia começa no silêncio", de acordo com Herbert Spiegelberg. Colocar o fenômeno ou objetos de algum modo primeiro, antes das construções de idéias, foi sua noção fundamental.
- Ou como Heidegger, existe um pensamento profundo e mais rigoroso do que o conceitual, e parte disso envolve um a ligação primordial entre o silêncio e o entendimento.
- Wittgenstein entendeu que algo permeia tudo que é dizível, algo que é em si mesmo indizível. Este é o sentido de sua bem conhecida última linha do Tractatus Logico-Philosophicus: "Daquilo que ninguém pode falar, deve se permanecer em silêncio".
- O silêncio também pode ser uma dimensão de medo, angústia, - mesmo de loucura e suicídio.
- De fato, é um tanto difícil de reificar o silêncio, frizá-lo em qualquer coisa não viva. Às vezes a realidade que interrogamos é muda;
- Um indício da profundidade de estar presente em silêncio? maravilhosa deve ser a questão que melhor nos dá resposta, silenciosa e profundamente.
- "O silêncio é tão correto" disse Mark Rothko, uma linha que tem me intrigado por anos.
- Também muitas vezes rompemos o silêncio apenas para vocalizar algum detalhe que se escapa num senso abrangente do que nós fazemos parte, e quantas maneiras existem para destruí-lo.
- No inverno de 1933, na Antartica, Richard Byrd anotou: "vou para minha caminhada diária as 4 pm... eu paro para ouvir o silêncio... o dia está indo, a noite está nascendo - mas com grande paz. Aqui estão imponderáveis processos e forças do cosmos, harmônico e inaudível"

- Annie Dillard também fornece uma linda resposta ao ruído: " A certo ponto você diz as árvores, ao mar, as montanhas, ao mundo, agora estou pronta. Agora irei parar e estar inteiramente atenta. Você esvazia a si mesmo e espera, ouvindo"
- Não é apenas o mundo natural que é acessível via silêncio. Cioran indicou os segredos nos silêncio das coisas, afirmando que "todos os objetos possuem uma linguagem que só podemos decifrar em total silêncio"
- David Michael Levin em The Body's Recollection of Being nos aconselha a "aprender a pensar através do corpo... deveríamos ouvir em silêncio para nossa experiência de sentir o corpo".
-
E na esfera interpessoal, o silêncio é resultado de empatia e de ser entendido, sem palavras muito mais profundamente do que de outra maneira.
- Os nativos americanos parecem sempre ter colocado um lugar de grande valor para o silêncio e experiência direta, e na cultura indígena em geral o silêncio denota respeito e auto-recolhimento. Isto está no centro do rito de passagem, o período solitário de jejum, abstinência e proximidade com a Terra para a descoberta do caminho e do propósito de vida do individuo.
- O Inuit Norman Hallendy aponta mais insights ao estado de silencioso consciente chamado "inuinaqtuk" do que em sonhos.

- A insaciável espera que Holderlin expressou tão poderosamente relacionada não somente a um silêncio original e pleno, mas também a sua crescente compreensão de que a linguagem deve sempre admitir sua origem na perda.
- Em Krapp's Last Tape, a idéia de que toda linguagem é um excesso de linguagem é fortemente sugerida.
- Nossos seres corporificados, tão sensível a esta Terra, entendem bem os limites da linguagem e certamente o fracasso do projeto da representação. Neste estado é fácil entender a exaustão da linguagem, e o fato de que estamos sempre na distância da palavra frente a imediação.
- Kafka comentou sobre isto em "In the Penal Colony", onde a máquina de impressão dobrou como um instrumento de tortura. Para Thoreau, "como uma verdadeira sociedade sempre tenta alcançar a solitude, a mais excelente fala finalmente cai em silêncio"
- Por outro lado, a sociedade de massas anula as chances de autonomia, assim como priva a possibilidade de silêncio.
- Holderlin imaginou que a linguagem nos empurra para o tempo, mas é o silêncio que nos manteria de volta contra o tempo. O tempo avança em silêncio; não surge para fluir, mas para permanecer. Várias temporalidades parecem perder suas barreiras, passado, presente e futuro menos divididos.
- Mas o silêncio é uma estrutura variável, não uma uniformidade ou abstração. Sua qualidade nunca está a parte de seu contexto, pois está no campo da não mediação. Diferente do tempo, o que tem sido por tanto tempo uma média da alienação, o silêncio não pode ser especializado, ou convertido em instrumento de permuta. Isto mostra o porque que o silêncio pode ser um refúgio da perpetualidade do tempo.
- Gurnemanz, próximo de abrir o Parfisal de Wagner, canta "aqui começa o espaço", o Silêncio evita esta dinâmica primária de dominação.
- Então aqui estamos, com a máquina nos subjugando em seus vários ataques contra o silêncio e e se introduzindo profundamente.
- Numa Zona de Ruído globalizante e homogeneizante, nós talvez possamos vir a ser harmonizados.
- Pico Ayer se refere ao "meu crescente senso de um mundo que canta o mesmo som em milhares de tons todos de uma vez".
- Precisamos de uma recusa do ruído da padronização, seu modo de "comunicação" de superfície barulho-informativa e perturbadora. Um Não ao insensível, penetravelmente colonizante não-silêncio, empurrando para cada não-lugar.
- O silêncio é um freio a tudo isto, e uma zona para reconstituirmos a nós mesmos.
- O silêncio colhe na natureza, e pode nos ajudar a colher a nós mesmos para as batalhas que darão fim a humilhação.
- O silêncio é uma importante ferramenta para a resistência, a nota inaudível que deve preceder a insurreição. Isto foi, por exemplo, o que os donos de escravos mais temiam.
- Em várias tradições espirituais asiáticas, o muni, vogal para silêncio, é a pessoa de grande capacidade e independência - aquele que não precisa de mestre para a iluminação.
- As paixões mais profundas são nutridas em modos silenciosos e intensos.
- De que outra forma o respeito pela morte é mais significamente expressado, o intenso amor melhor transmitido, nossos pensamentos mais profundos e visões experienciadas, e o mundo não destruído é mais diretamente saboreado?
- Neste mundo angustiado e ferido, de acordo com Max Horkheimer, nos "tornaríamos mais inocentes" devido a angústia. E possivelmente mais abertos ao silêncio - como conforto, aliado, e fortaleza.
(John Zerzan (1943) - anarquista norte-americano que se destacou na segunda metade da década de 1980, Filósofo e escritor, é considerado um dos expoentes do anarcoprimitivismo.)/ fotografia: Taiana Grando

... há nos olhos meus ironias e cansaços!








"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...



Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
"Cântico Negro"



José Régio - 1901/ 1969