sábado, 19 de fevereiro de 2011

a flor suicida

Não tenho plantas na minha casa. Não consigo fazer com que elas fiquem vivas. Algumas nem esperam morrer, cometem suicídio. Uma vez, cheguei em casa e encontrei uma planta pendurada numa corda, com o vaso de xaxim caído no chão. Tinha um bilhete de despedida dizendo: "Detesto você e seus CDs!!!"
                                                                                                                       (Jerry Seinfeld)

secretamente sonha com a beleza, secretamente, secretamente

É mais estranho do que podia imaginar
Atreve-se a olhar?
Consegue pensar em mim?
Este gárgula repugnante
Que arde no inferno
Mas que, secretamente,
Anseia pelo paraíso
Secretamente, secretamente (...)
O medo pode se transformar em amor
Você aprenderá a olhar,
A encontrar o homem
Por trás do monstro
Desta repulsiva carcaça
Que parece um animal
Mas que, secretamente,
Sonha com a beleza
Secretamente, secretamente

do filme O FANTASMA DA ÓPERA

a dor é o que de mais sensível existe...



A felicidade, a vida de prazeres e o triunfo podem ter exterioridade rudes e essência vil: a dor é o que de mais sensível existe. 

 Nada existe no mundo espiritual a que a dor não possa atingir com sua aterradora e sutilíssima pulsação (...)

 A dor é uma ferida que sangra ao roçá-la qualquer mão que não seja a mão do amor e que também sangra, embora sem fazer sofrer, quando esta a roça. (Oscar Wilde)

"sou testemunha única de minha loucura"



"Abandono alegremente tarefas mornas,
escrúpulos razoáveis,
condutas reactivas,
impostas pelo mundo em benefício de uma tarefa inútil,
originada num Dever incontestável: o Dever de amor.
Faço discretamente coisas loucas;

sou a única testemunha da minha loucura."

(Roland Barthes)

Reflexões No Espelho



Por onde anda a gente quando dorme
pra acordar com esta cara disforme
de quem fez o que não devia?

...
E se só estivemos no leito
por que acordar deste jeito
com este olhar de pouco assunto?
Pra onde vai meu ser noturno
pra me deixar assim soturno
- e por que não me leva junto?

(luís Fernando Veríssimo)

não basta a impossibilidade de ser feliz?

"É o meu destino afligir aqueles a quem devia tornar felizes! Adeus..."


"E se acabou no chão feito um pacote tímido".

(...)

Vocês acham que o mau humor é um vício; parece-me tanto exagerado.


- Absolutamente, repliquei: - pois é justo que se dê esse nome a uma coisa que nos torna nocivos a nós próprios e aos outros. Não basta a impossibilidade de uma criatura ser feliz?


 É ainda preciso estragar o prazer que outros podem achar em si mesmos? Aponte-me um homem que, estando de mau humor, tenha a coragem de ocultá-lo, de sofrer sozinho, sem perturbar a alegria dos que o cercam? 

Mas o mau humor não seria antes uma irritação íntima desviada ao sentimento da nossa própria insuficiência, um descontentamento em relação a nós mesmos, ao qual se junta sempre a inveja espicaçando uma vaidade idiota? (trecho de werther goethe)

Fatima Vieira - Psicóloga Clínica
 

falo prá você que se fecha no silêncio...

vamos supor
que a vida seja um velho que carrega flores na cabeça.
a jovem morte está sentada num café,
sorridente, uma moeda entre
o indicador e o polegar.
(falo para você "compre umas flores"
e: "a Morte é jovem
a vida usa calças largas
a vida gagueja, a vida tem barbas" e
falo pra você que se fecha no silêncio ? "Tá vendo
a Vida? está lá e aqui,
é isto ou aquilo
ou nada ou um velho quase
adormecido, sobre a cabeça
flores, sempre gritando
pra ninguém alguma coisa sobre as
rosas e tulipas,
sim,
Ela vai comprar?
os belos ramalhetes ? ei, escuta,
tá de graça")
e meu amor lentamente respondeu acho que sim. Mas
acho que vejo mais alguém ali
uma senhora, seu nome é Depois,
está sentada ao lado da jovem Morte, é bonita;
as flores gostam dela.
(e. e. cummings)

quando o erro não é do diabo

A experiência me ensinou que, quando uma situação se torna confusa e incompreensível ao ponto de ter algo de sinistro, não se deve ir logo jogando a culpa no diabo antes de averiguar se não houve alguma mentira humana na origem ... 

Como é da natureza da mentira ocultar-se a si própria, depois ocultar a ocultação e por fim apagar da memória todos os rastros da sua origem, não existe mentira isolada: há uma progressão geométrica de falsificações e aquilo que parecia uma toca de coelho
acaba por se tornar uma cratera imensa, um abismo insondável. 

Não que o diabo não tenha participação nenhuma na coisa, mas às vezes todo o seu trabalho consiste em inspirar a mentirinha inicial, deixando o resto da arquitetura abissal por conta da estupidez humana.
Olavo de Carvalho

VISITA À CASA MATERNA


Neste dia de maio, vim ver-te, Mãe,
Vim a esta tua casa
Construída de pedras cinzentas,
Enfeitada por uma cruz e um coração de mármore.
Vim repousar a cabeça sobre o teto do teu lar.
Não te trago muitas aflições, neste dia de festa,
Não estou em desespero.
Sou um homem maduro, mais velho
Vinte anos do que tu, quando me deixaste nesta terra,
Adolescente entre os homens.
Já vi mais coisas do que viste e tive mais esperanças do que tu,
Que eras lúcida e triste desde a juventude.
Recolhi muitos desenganos; e seguirei até a morte assim
Como sou, incerto, cego, orgulhoso,
Com as desesperanças se acumulando sempre.
Aqui estou, Mãe, diante de ti, homem completo,
De cabelos grisalhos, machucado e exaltado pela vida.
Um homem ferido e estranhamente compensado pela vida,
Um homem já meio do outro lado, vergado,
Curvado ao peso de pecados e erros,
De responsabilidades, de contradições e de amarguras.
Aqui estou diante de ti, Mãe,
Aqui vim
Pedir-te que me perdoes e me justifiques.
Sou quase um velho; durante mais de meio século
Andei pelas estradas da terra, atravessei desertos,
Contemplei paisagens geladas, toquei no fundo
Da minha própria miséria e das misérias alheias.
Durante muitos anos, enquanto dormias aqui,
Fui levado para exílios e encontros de toda a espécie.
Este teu filho é um homem vivido,
É um navio provado por muitos mares,
Um navio batido, curtido por ventos e tempestades.
É um navio perdido na névoa, este homem que aqui está,
Este ser usado que procura sua mãe.
É um velho navio, é um velho homem.
Não se parece, em quase nada,
Com aquele a quem disseste adeus, para sempre,
Na hora da partida, em junho de 1922.
É um ser cansado, um pássaro exausto
Que procura o seu ninho remoto
Nesta casa de pedra em que te escondes,
Em que repousas de uma breve existência.
É um homem este que aqui está,
Em quem mal reconhecerias o filho teu,
O sensível e verde aventureiro, pronto
para os nobres impulsos,
Mas tão incerto e tão fantasioso,
Tão incapaz de perseverar e de crer longamente,
O ser matinal que tremias, Mãe, ao deixá-la, perdido
No mundo, o ser cujo destino te preocupava
Diante da revelação de tantas inconstâncias.
É um homem experimentado este que aqui está, Mãe,
mas é um poeta.
E, porque é um poeta, muito lhe será perdoado.
E, porque é um poeta, não perdeu o dom
De olhar a face da Infância
E de te ver, Mãe,
Como te está vendo nesta hora,
Com os mesmos olhos com que te contemplava
Outrora, quando eras a sua Estrela,
E o seu abrigo, o centro do seu mundo,
A força e a lei que o conduziam,
Quando eras tudo, toda a sua alegria e proteção.
Deus permitiu que em teu filho
Não se perdesse o dom de olhar
O mundo em certos instantes
Com a poesia dos que não foram poluídos,
Dos que não foram enganados pela vida.
Aqui estou, debruçado sobre o teu tÚmulo, Mãe,
E eis que te ergues diante de mim,
E eu te vejo não como adormeceste em Deus,
Pálida, vestida com o burel do Carmo,
Mas matinal e alegre, coroada de flores,
Viva e serena, na primeira e gloriosa maternidade,
Com as tranças repartidas, e no olhar
A luz da beleza intocada.
Assim te pode ver teu filho, de olhos fechados.
Assim te pode ver este homem de gestos cansados,
Este segador no fim da sega,
Este quase velho, debruçado sobre o teu túmulo.
Assim apareces, Mãe, ao filho que deixaste tão cedo,
Entre as perdições do mundo.
Mãe, aqui estou no dia de hoje,
Batendo à tua porta, procurando a tua companhia.
Não me desconheças nem perguntes quem sou.
No fundo de mim mesmo, apesar de tudo o que houve,
Das incompreensões, do pó e da amargura,
Das misérias que pratiquei e que praticaram
Contra mim; apesar da experiência do ódio e do amor,
amargos ambos,
Sou o mesmo filho que deixaste
Na orfandade
Quando partiste,
Estrela materna, flor de beleza,
Que o vento gelado crestou na juventude.

(AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT - Visita à Casa Materna - 1906/1965)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Alberoni - porque o saber é ciência, mas o amor é poesia

Do Livro: Lições de amor - Sua linguagem é científica e poética. “Porque o saber é ciência, mas o amor é poesia”, diz Alberoni.
As perguntas vão desde questionamentos que parecem um inocentes (“como pode uma única pessoa proporcionar a alguém mais felicidade que muitas outras?” ou ” a medicina pode nos curar do mal do amor?”) a outras, mais maduras (“O amor é sempre possessivo, é sempre uma obsessão?” ou “O orgasmo feminino é favorecido pelo amor?”). O livro é dividido em temas: enamoramento e amor; do amor à primeira vista ao amor completo; o sexo e o amor; o passado; enamoramento e deslumbramentos passageiros; o prazer; erotismo masculino; erotismo feminino; o casal; quando o amor acaba; amantes; o jogo do amor.
Existe amor à primeira vista?
Não, não existe. O enamoramento pode começar com um olhar, quase como uma descarga elétrica, mas nunca deixa de ser um processo com questionamentos, dúvidas, momentos de exaltação e de incerteza.
Existem pessoas que nunca se apaixonam?
Sim, sem dúvida. Todos nós possuímos defesas contra o enamoramento. Não queremos baixar a guarda, não desejamos nos entregar. Há pessoas que se defendem de forma tão perfeita que nunca se apaixonam. Na maioria das vezes, trata-se de alguém que sofreu graves frustrações na infância. (…)
A sexualidade, no amor, tem a mesma importância para todos?
Não. Todas as pessoas apaixonadas tendem a fundir-se eroticamente, mas em algumas delas o foco central do relacionamento não é a sexualidade. Há outras, por sua vez, cuja carga erótica é muito forte e então, quando estão apaixonadas, experimentam uma verdadeira fusão entre sexo e amor, razão pela qual qualquer coisa que façam tem um toque de erotismo. (…)
Os não ciumentos não amam?
Quando amamos, queremos que o nosso parceiro nos ame de forma exclusiva, e se, porventura, recearmos que o objeto do nosso amor prefira, ainda que momentaneamente, outra pessoa, então ficamos ciumentos. Quando não amamos, não nos importamos com o fato de o outro não amar somente a nós, de não desejar só a nós. Mas seria um erro pensar que, quanto mais amamos, mais nos tornamos ciumentos. (…) O ciúme quase não existe quando se tem certeza do amor (seja isto verdade ou apenas uma percepção subjetiva).
Pode haver prazer sem orgasmo?
Pode. A nossa tradição sempre considerou o orgasmo fundamental. (…) O prazer pode ser mais duradouro que o orgasmo, como ensinam muitas culturas orientais.
A sexualidade do casal precisa de constante exercício?
Sem sombra de dúvida. É fundamental que duas pessoas casadas continuem a fazer amor e não se deixem tentar pela ideia de ficar adiando. O erotismo, como qualquer outra atividade humana, só existe enquanto for exercido e aprimorado. (…) Muitos casais transformam seus corpos em objetos inertes, e o mais triste é que às vezes o motivo é a preguiça.
É possível apaixonar-se pela internet?
De verdade, não. Pode ser um começo, um ponto de partida do processo (…). Somente através do relacionamento e do contato pessoal poderemos saber se o que havíamos percebido e intuído era real. A prova final e definitiva do amor é o corpo.A paixão é, ainda, exclusivista. Seu objetivo é um só e não pode ser substituído. A paixão exige total dedicação. No entanto, pode ser unilateral, isto é: pode não ser correspondida e cria, também, o tempo e o espaço míticos.
(... ) determinadas datas, determinados lugares são considerados “sagrados” pelo par enamorado. São “seus”, estão ligados a origem da paixão e são comemorados seguidamente tendo a função de reativar os sentimentos.
A paixão se alimenta da tensão criada pela diferença que se deseja igualdade. Desejamos a diferença do outro porque é ela que nos atrai, por abrir novos horizontes de vida. Ao mesmo tempo, porém tentamos limitar essa diferença, para nos sentirmos seguros.
O ser amado é sempre força vital livre, imprevisível e polimorfo. E o próprio fato de ser imprevisível que nos faz sentir ciúmes em função do medo da perda. Aquele que for o mais inseguro do casal começa a estabelecer para o outro, limites cada vez mais estreitos que funcionam como provas de amor, a exigir renúncias numerosas a fim de tornar o parceiro um ser dócil, inócuo, domesticado.

E o fim da paixão, como é sentida?
Assim: O outro aceita, renuncia a amizades, programas, viagens, às vezes até a profissão. Muda o comportamento e a aparência pra manter o amado feliz, transforma-se na imagem desejada por ele, perde a individualidade, a liberdade de ser e escolher.
O parceiro, por sua vez, se vê seguro, mas diante de uma pessoa que não mais o interessa, que não aponta mais para novas possibilidades de vida, que não tem mais força vital pela qual se apaixonou.
Este é o fim da paixão e o começo da desilusão e do rancor, isto é, o momento em que a paixão alegre degenera em paixão triste.

Sociólogo italiano, Francesco Alberoni nasceu em 1929, em Piacenza, Itália. Licenciado em medicina pela Universidade de Pavia, estudou psicanálise. Tornou-se professor de sociologia em 1964. Desenvolveu uma teoria dos movimentos coletivos, patente nos seus livros Estado Nascente (1968) e Movimento e Instituição (1977). Aqui, Alberoni explica o processo histórico como o resultado de dois tipos de forças: por um lado, as utilitárias e econômicas, que transformam e inovam mas não criam solidariedade social, e, por outro, as representadas pelos movimentos, que só podem surgir da solidariedade social.
Obras: Enamoramento e Amor; A Amizade; O Erotismo; Público e Privado; Altruismo e a Moral; Invejosos; O Vôo Nupcial; Valores; O Optimismo; O Primeiro Amor; Tenham Coragem; Nascentes dos sonhos; Saber Decidir; O Mistério do Enamoramento; Sexo e Amor; Sexo e Amor; Lições de Amor; Amo-Te.

... e com a arte sutil dos tornozelos

E logo ela é só flama, inteiramente.
Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.
Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso,
dançarina espanhola.

Rainer Maria Rilke/ fotografia: Taiana Grando